Ou PS’s Anatomy. Emergency’s Anatomy. Anatomia do Departamento de Emergência. Você escolhe o nome que você quer dar. Fato é que vamos começar a estudar Medicina de Emergência e todo o estudo da Medicina começa na Anatomia.
Entender as partes de uma Emergência é fundamental para conseguir começar a pensar como um emergencista, assim como foi fundamental começar pela anatomia para entender o funcionamento do coração, músculos e outros órgãos do corpo. Com uma base sólida, podemos então construir o raciocínio sobre processos fisiopatológicos, e, no nosso caso, sobre a logística de funcionamento do Pronto-Socorro.

A Emergência não é uma unidade de Internação. É um setor de passagem.
Triagem/Acolhimento e Classificação de Risco
Esse tema por si só já demanda uma aula só ele, mas precisamos entender que toda emergência possui um setor onde o primeiro contato com o paciente é feito. Geralmente, dependendo do sistema que você trabalha, esse contato inicial é direto com um Enfermeiro treinado em identificar as principais doenças tempo-dependentes, outros lugares será com o recepcionista, e em alguns sistemas até mesmo com o próprio médico. Aqui geralmente são aferidos os sinais vitais e, baseado neles e nas suas queixas, o paciente tem seu risco inicial estabelecido.
Sala de Espera

A fonte de praticamente todas as reclamações relacionadas com o Departamento de Emergência é a Sala de Espera e o famigerado tempo de espera até o atendimento. Aqui os pacientes que podem esperar aguardam pacientemente serem chamados para o atendimento médico. Aqui a prioridade, como sempre, é a ordem de gravidade e não a ordem de chegada. Uma triagem bem feita é fundamental para que o atendimento seja organizado e os pacientes não “morram” na sala de espera. Infelizmente, em casos de colapso dos sistemas de saúde pelo mundo, com sobrecarga dos Departamentos de Emergência, esses cenários têm ocorrido com certa frequência, como tem ocorrido no Canadá.
Consultório Médico
Aqui é onde o primeiro atendimento médico efetivamente ocorre. Esse consultório recebe os pacientes amarelos e verdes, uma vez que não há estrutura de suporte para atendimentos mais complexos. Geralmente conta com uma maca (que pode ser fixa ou não) para o exame direcionado do paciente, computador/impressora, pia para lavagem das mãos e equipamentos para aferição de sinais vitais. O paciente não deve demorar muito tempo aqui. O atendimento médico de emergência é rápido e direcionado.
Sala de Medicação/Hipodermia

Aqui os pacientes com baixa gravidade fazem medicações venosas, orais ou inalatórias, aguardando os remédios fazerem efeitos ou a melhora do quadro clínico. Conta com uma equipe de enfermeiros, geralmente 1 enfermeiro e técnicos de enfermagem para a administração das medicações. Um médico fica responsável por reavaliar os pacientes e atender às intercorrências dessa Sala. Aqui também os pacientes podem aguardar para serem chamados para a complementação diagnóstica com exames de imagem ou coleta de exames laboratoriais. Em um Departamento eficiente, o paciente deve ficar aqui o mínimo de tempo possível para a tomada de decisão – não mais que 4 horas.
Sala de Observação Clínica/Sala Verde (Amarela em alguns lugares)
Nesse espaço os pacientes que necessitam de internação hospitalar para a compensação de quadros clínicos ou cirúrgicos em leitos de enfermaria/quarto, ou transferência para outra unidade, ficam aguardando. Aqui os tratamentos já iniciados continuam para a compensação desses quadros. Idealmente as vagas de internação saem rápido e a Sala possui uma alta rotatividade.
Sala Vermelha/Sala de Trauma

Onde a medicina faz sua arte acontecer. Aqui é o local para onde os pacientes mais graves são trazidos e o Emergencista e a equipe de enfermagem/fisioterapia emergencistas trabalham para salvar vidas. Procedimentos são realizados nessa Sala, desde intubação orotraqueal, até mesmo a toracotomia de reanimação. Aqui encontramos o aparelho de USG, o melhor amigo do Emergencista, para a realização do POCUS. Os pacientes são estabilizados, diagnosticados rapidamente e encaminhados para o centro cirúrgico/CTI ou se melhorarem para a Sala Verde. E, geralmente, a Sala Vermelha recebe os pacientes que descompensam nas Salas de Medicação/Hipodermia/Salas Verdes – em alguns lugares até mesmo os pacientes que descompensam das Enfermarias voltam para a Sala Vermelha. A Sala Vermelha deve sempre ficar vazia, pronta para receber os pacientes mais graves, com sua equipe de prontidão.
Retaguarda da Sala Vermelha/Sala Amarela

Um dos maiores problemas de todo Departamento de Emergência no mundo são leitos de Terapia Intensiva de retaguarda para a internação definitiva dos pacientes graves. Infelizmente ter um leito pronto de CTI não é uma realidade na maioria dos lugares, então a Emergência às vezes possui um próprio CTI ou leitos de estabilização extras para desafogar a Sala Vermelha/Sala de Trauma. Idealmente o funcionamento deve ser igual o de um CTI, com um médico e equipe multiprofissional dedicada para o tratamento intensivo continuado desses pacientes até surgir efetivamente um leito.
Quando nós entendemos o papel de cada Setor ou Sala no Departamento de Emergência, de cada órgão dessa anatomia complexa, podemos começar a entender a necessidade de pensar diferente quando estamos de plantão. O Emergencista antes de tudo é um médico especialista em Logística. Meu objetivo não deve ser resolver a vida toda do paciente na Emergência – a Emergência é um setor de passagem -, mas sim direcioná-lo para o tratamento/lugar mais adequado à sua doença: seja ele na enfermaria, no CTI ou até mesmo indo com segurança para casa aguardar uma consulta marcada.
Tá, mas e o RaioX? Vamos conversar sobre isso no próximo post.
Como pensar na Emergência? Conhecer a Anatomia do Pronto-Socorro é fundamental para começarmos a entender o processo de pensamento envolvido no atendimento de Emergência.
-| Daniel Schubert

